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A2

Um blog escrito A2.

A2

Quem é que chora aqui?

MGC, 19.05.20

Eu imaginei este momento um milhão de vezes, no mínimo.

Eu ia chorar de emoção, de felicidade, de medo, de tudo um pouco. Mas eu ia chorar!

Não chorei, fiquei só com cara de parva. O meu coração batia rápido, a respiração ficou ofegante, mas eu não chorei.

Logo após ter feito os dois testes e ter tido força nas perninhas para voltar para o quarto não me aguentei e acordei-o. Disse que tinha uma surpresa, mostrei os testes, ele ficou feliz. Demos um abraço e a minha voz tremeu, mas continuei sem chorar.

Não consegui dormir mais, então fui dar uma caminhada… às seis da manhã! Para que me conhece sabe que isto é sinal de doença ou de loucura.

Nessa mesma noite contei aos meus pais por videochamada e passados uns dias em pleno domingo de Páscoa contei aos meus irmãos e sobrinhos assim numa mega videochamada. Emocionei-me, as vozes tremeram todas. Mas, nada de choro.

E isto ficou ali a moer-me o cérebro, porque raio é que eu não chorei? Eu quase todos os dias e lacrimejam os olhos a ver o telejornal, a ver os vídeos da malta em casa em gestos fofinhos e românticos, eu no outro dia quase que chorei ao ouvir musica Pimba porque tudo aquilo estava a envolver muitas pessoas a saberem a musica e lembrou-me o quanto é bom estar em Portugal, no meio de gente, da minha gente, o quao é bom dançar, saltar pular, abraçar.. e se não fosse por vergonha tinha chorado que nem um bebé. Mas por saber que estava grávida, tá quieto!

Na verdade, eu durante semanas não acreditei muito bem na coisa. Ele até encomendou mais um par de testes digitais da clearblue online só para eu fazer e poder tirar a teima. E mesmo assim não fiquei convencida.

Lá me convenci que quando fizesse a primeira eco é que era! E a família também me dizia, 'quando ouvires o coraçãozinho a bater é que vais ver, é mágico! É uma emoção enorme e aí é que te cai a ficha'.

Por aqui a primeira eco é só as 10-12 semanas então decidimos marcar uma eco pelo privado só para ter a certeza que estava tudo bem e que efetivamente estava la um ser vivo a crescer! E não se enganem que isto infelizmente não é como Portugal, não há um sitio para fazer ecos a cada esquina. Então lá fomos a um dos mais perto e que estava a funcionar em tempos de pandemia.

Vimos literalmente uma mancha em movimento e ouvimos o coração por o que pareceram ser 7 ou 8 segundos. E pronto, foi muito giro. Uma experiência que ficou na memória, trouxemos fotos e vídeos, mas... não senti magia, não chorei, e ainda não sinto que tenho a melhor coisa da minha vida na minha barriga. Serei anormal? Eu leio testemunhos de mulheres que dizem que assim que souberam que estavam grávidas que amaram imediatamente o filho que crescia dentro delas, que o coração explodiu de amor, o mundo girou ao contrário, e eu só penso que afinal não sirvo para isto porque não senti nada dessas cenas.

Atenção que não há dia em que me esqueça que estou grávida. Os enjoos constantes, o cansaço, duas idas ao hospital por causa de infeções urinarias, duas doses de antibiótico... não me deixam esquecer. Só não sinto é um amor explosivo pela minha barriga que parece acima de tudo resultado de uma grade de cerveja ingerida na noite anterior.

E com isto tudo, 10 semanas e ainda não chorei!

Tou fod#%$# com isto!

Foda-se

MGC, 14.05.20

DISCLAIMER: Este texto tem muitos detalhes de assuntos de senhora sim? Se tem tendência para o nojo, não leia!

DISCLAIMER 2: Este texto está escrito assim como que fosse a minha voz-off, que é como quem diz, é uma narração assim precisa do que ia na minha rica cabecinha.

 

Notificação no telemóvel: o seu período chega hoje!

Ah que bom, ainda se fosse uma notificação de jeito agora a falar-me do período... obrigadinha.

...

Estranho, já há uns quantos meses que não recebia a notificação. Não dava tempo porque o meu corpitxo decidia sempre que ele deveria chegar mais cedo, assim em grande. Mas isto as apps são mesmo inteligentes! Percebeu que o meu período tem chegado sempre mais cedo então de certeza que ajustou isto para que o meu ciclo seja menor. Deixa lá ver...

1, 2, 3, 4, 5.... ah não ajustou nada! Então... isso quer dizer que está atrasado? Deixa lá assim como não quer a coisa ver quão longos foram os meus ciclos nos últimos meses...

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11.. foda-se perdi-me! Ai que este calendário é pequeno comó raio!

1, 2, 3, 4, ... 

(10mins depois)

Então, a média de ciclos dos últimos 5 meses é de 25 dias. Hoje é o dia 27! Então... há um atraso?

Voz-off-off/ consciência / anjo mau: lá está ela a fazer filmes! Oh melher não é atraso nenhum, já estás com macaquinhos no sótão e isso só te poe mais doida do que o costume! 

Pois é, não é atraso. É só um ciclo mais longo, de certeza que não é nada. De certezinha!...

Então vou fazer assim, o dia ainda tem muitas horas, se não aparecer até ao final do dia faço um teste amanha! É isso! Tenho ali 2 testes clearblue, um de risquinha e um digital. Assim pronto gasto o da risquinha e fica feito.

Deitada com a cabeça na almofada: Ai o carago! E não é que não apareceu mesmo? Bem lá vamos nós amanha gastar um testinho só para colocar a maluquice de lado.

6h: da matina do dia seguinte aiii alerta xixi! Xixiiiii tenho tanto xixi! Ai espera lá, deixa-me lá fazer isto para o copinho de vidro antes que me esqueça (porque senhores e sinhoras... ninguém consegue acertar naquela tirinha sem mijar aquela porra toda! Está dito).

Ai mas espera lá... antes de tirar o teste deixa-me lá ir buscar o telemóvel, gravar a reacção de enfadada na minha tromba ás 6h da manha (prometi sempre a mim mesma que faria isto porque um dia que tivesse um positivo queria que o meu marido visse a minha reacção, mas nunca na vida iria perder a oportunidade de lhe fazer uma surpresa).

Ora vamos lá... molhar a pontinha, 1, 2, 3, 4, 5,... acorda pah! 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15....

Foda-se o que é esta risca????? Nunca vi isto antes! Ah espera não há risca na janela de controlo, tá estragado! Ai foda-se a risca da janela de controlo apareceu. Duas riscas... han? Não pode. Espereeeeeera! Vou buscar o digital!!

Molhar a pontinha, e conta até 15 mas ainda mais para dentro melher que são 6h da manha.... Ok! Tá a pensar. Esta bem... A pensar... A pensar.... Tanto tempo??????

Ainda está a pensar...

Pregnant!

E tás apensar mais no que?

2-3 weeks! 

...

FODA-SE.

Tentados a parar de tentar

MGC, 30.04.20

Entao ficámos naquela parte em que tudo fazia muito sentido, e que tínhamos toda uma noção de tudo... E que no fundo no fundo a coisa até acontecer já já já... seria um pouco assustador! Precisávamos de tempo, orientar mais a nossa vida, tudo o que nos rodeia. Portanto, tudo certo.

Tá, digam isso à mulher vai à casa de banho e percebe que lhe veio o período, um mês, dois meses, três meses. Ela até sabe que é normal, e ela até sabe que tem tempo, e ela sabe isso tudo... mas aquela parte irracional, hormonal, chamem-lhe o que quiserem, sussura-lhe ao ouvido: é porque tu não consegues, é porque tu nunca vais conseguir.  Como é que achaste mesmo que ias conseguir isto?

É tão dificil explicar isto de uma forma racional. É tão dificil justificar isto. Sentes que o teu corpo não consegue concretizar aquilo para o qual foi concebido. Sentes uma frustracção que é quase que injustificada porque sabes perfeitamente que há tantas pessoas a tentar há bem mais tempo do que tu, e é normal! Tentas parar, respirar fundo, e relembrar o teu coração daquilo que o teu cérebro sabe tão bem: não faz mal, é tão normal. Mas ele não quer ouvir. 

Passados uns meses disse ao meu marido que não queria mais testes de ovulação! Por uns meses queria só divertir-me! Podia dar um olhinho na app só para saber a quantas andava, mas nada de fazer xixi para um pauzinho constantemente! Decidi que tinha que me soltar disso pois só me estava a deixar doida!

E assim foi. E se mesmo assim cada vez que me aparecia o periodo eu ficava enfadada? Sim, mas rapidamente punha isso para trás das costas.

Diz que queremos filhos... Vamos a isso?

MGC, 10.04.20

Depois de muitos mudanças de decisão, há cerca de dois anos ficou assente que queriamos ter filhos. 

Por conta de uma cirurgia que fiz em 2018, quando fui vista novamente em Abril de 2019 os médicos foram unânimes: é para engravidar amanhã está bem? Fizeram as análises todas, encheram-me de caixas de ácido fólico, e mandaram-me de volta para o UK com o recado bem dado. E eu nessa altura decidi também por vários motivos parar de imediato com a pílula.

E começámos a pensar nisso mais as sério. Cada vez queríamos mais mas estamos sempre a espera de um momento melhor, financeiramente mais estável, a casa, o carro.... mas esperar não era de todo viável pois poderia tornar-se tarde demais para o 1o filho.

Em finais de Setembro decidimos então colocar o plano em marcha, tomar ácido fólico, e começar a ter atenção a períodos férteis, dias de ovulação, e todas essas coisas!

Posso dizer que o meu marido ficou fascinado com tudo isto, sabia lá ele que só há ali uns quantos dias no mês em que efectivamente a coisa funciona e a malta engravida? É, parece que não é assim tao simples, há toda uma ciência. E há até testes que nos mostram se estamos a ovular e se é tempo de treinar ou não. E pronto, aí ficou rendido! Se há ciencia então ele tem que ter os gadgets mais fixes! Entao lá me foi o homem comprar um teste de ovulação que se liga ao bluetooth do telemóvel e que coloca toda a informaçao numa app! 

É fixe? É! Mas a pessoa compra uma vez, porque a maquineta só dá para usar durante um par de ciclos e nao é baratiiiinha.

Portanto assim foi, utilizámos durante um par de meses, anotámos o padrão e sabíamos mais ou menos os dias certos.

Tínhamos um compromisso, não panicar! Quando tivesse de acontecer, acontecia! Tomei a pilula durante muitos anos portanto sabia que iria levar algum tempo até o meu corpo voltar a ser 'ele próprio', e sabiamos também que embora também aconteça à primeira... na maior parte dos casos não é bem assim.

Portanto, parece tudo muito lógico nao é? Parece que estamos a fazer o suposto e que esta tudo psicológicamente alinhado!

Tá bem!

Um blog preguiçoso e agora... de quarentena.

MGC, 31.03.20

Vi que se passaram muitos meses desde a última vez que escrevi. Os motivos são muitos, ora não tive tempo, ora não tive momentos felizes para contar, ora me faltavam as palavras para contar tudo o que me ia na alma. É curioso o quão facilmente deixamos que as desculpas se sobreponham ao que mais gostamos de fazer.

Agora não falta tempo, pelos piores motivos. Agora o mundo está parado e tememos pelos momentos que nos falta viver.

Colocámos grande parte da nossa vida em perspectiva. Todas as coisas que valorizamos erradamente, todas as preocupações disparatadas. Tudo aquilo para que não tivemos tempo, idiota! Devias ter arranjado tempo!

E agora aqui estamos, meio que em suspenso. Todos os dias a viver entre o quarto, a sala, a cozinha... a pensar o casamento como uma bombinha-relógio... Um passo em falso e a malta vai desatar à batatada! Os nervos estão em franja!

Eu estou a trabalhar a partir de casa faz hoje 3 semanas! T-R-E-S!

Semprei gostei de trabalhar a partir de casa, faz-me sempre falta o sossego para colocar coisas em dia e despacho sempre imenso trabalho. Mas agora só me apetece puxar os cabelos. 

Faltam-me as pessoas maravilhosas com quem trabalho, falta-me o meu tempo, faltam-me os passeios da hora de almoço, falta muita coisa. Acima de tudo, falta a liberdade para.

 E além de tudo isto, ando cansada que dói. Isto na minha cabeça ia ser tudo muito relaxante, eu ia ter muito tempo. Mas na verdade o volume de trabalho aumentou exponencialmente e deito a cabeça na almofada a pensar em trabalho. 

Ah não, não é só em trabalho. É também no número de infectados, de mortes, nas mil medidas tomadas, na falta de recursos, na idiotice das pessoas...

O UK é agora a nossa casa

MGC, 13.10.19

Chegámos a Inglaterra em Janeiro de 2017 e na bagagem trouxemos imensas roupas, sonhos, medos, mas acima de tudo muita esperança.


Deixámos tanto para trás... A nossa família que amamos tanto, o colo, os abraços e beijos. Mas foi com um sorriso no rosto que cá chegámos.Virar a nossa vida do avesso, enfrentar um novo desafio, tudo isto nos motivava.


Os primeiros tempos foram muito duros. Tudo o que podia correr menos bem, correu. Ponderámos desistir, mas não o fizemos e ainda bem.


Apesar de todas as dificuldades a adaptação foi rápida. O país, as pessoas, a língua, os costumes, receberam-nos de braços abertos e ensinaram-nos muito. Hoje conhecemos tantas vidas, tantas opiniões, tantas perspetivas diferentes. Conhecemos pessoas dos quatro cantos do mundo e isso mudou a nossa vida de uma forma inexplicável.


Mas há muitos dias, muitas noites, em que custa horrores. As saudades são avassaladoras e ocupam cada pedacinho do nosso coração e da nossa mente. Uma dor de tudo o que estamos a perder, os aniversários, os jantares, as derrotas, as conquistas. Dói tanto! E nestes momentos só contamos as perdas, só nos questionamos se fizemos a escolha certa.


Felizmente existem também os dias bons. Os dias que nos recordamos de tudo aquilo o que conquistámos com tanto esforço. As batalhas que travámos e que nos permitiram chegar aqui... Hoje somos mais fortes, mais tolerantes, mais persistentes. Hoje somos mais crescidos e queremos continuar a crescer. Isto é, se o Brexit o permitir (na verdade não temos assim tanto medo dele!)

Recordar é viver

e é tão necessário

MGC, 01.10.19

No outro dia li textos antigos, muito antigos. Dos dias em que estava cegamente apaixonada, ao ponto de não ver as tuas falhas. Dos dias em que estava bêbada de felicidade por te ter, e tu a mim. Nesses dias em que também discutíamos, mas ferozmente fazíamos as pazes. Estávamos bêbados com a vida, era tudo tao rápido, tão saciante, tudo acontecia tão depressa, e tínhamos pressa, mas não sei do quê.

Gostei tanto de ler, recuei no tempo, senti cada palavra, e vi-me naqueles momentos. Vi-nos ali na cama, deitados a deitar conversa fora. Vi-nos apaixonados, perdidos um no outro.  Fiquei triste. Senti que perdemos essas pessoas algures nestes anos, algures nestas discussões. Senti que perdemos aquela paixão avassaladora, que ganhámos demasiado noção do que nos rodeia. Naquele tempo não queríamos saber. O mundo podia acabar desde que não caíssem pedaços da nossa cama, pouco nos importava.

Ainda nos amamos, ainda gostamos um do outro, mas crescemos. E agora não nos perdemos tanto um no outro porque não nos podemos perder tanto do mundo.

Agora importamo-nos que o mundo acabe, importam-nos as horas, os dias, os números. E por vezes importa-nos pouco o outro. E agora zangamo-nos com detalhes, com palavras mal colocadas, com ideias. E cabe-nos decidir quão certo ou errado é isto.

Hoje fiquei triste, senti saudade desse tempo que recordei. Senti saudade dessas pessoas senti tanta saudade do quão confortável e protegida estava nos teus braços. Senti saudade de ser tão mais do que o suficiente.

E é por isso que escrevo. Porque as palavras têm a capacidade de evocar memorias tão melhor do que qualquer imagem. As palavras relembram o que eu senti, o que ia dentro de mim e do meu coração. E é por isso que nunca irei parar. Para que nunca me esqueça do que senti. Para que me lembre sempre de mim e de ti. Para que me lembre de nos manter vivos um para o outro nos dias menos bons, nos dias que nos falha a memória. 

Escolhas de Vida

MGC, 27.09.19

2016

- E se emigrássemos?

- Estás doida?

- Podia ser a solução... Já não sei mais o que podemos fazer.

- Eu percebo, mas não podemos ir embora assim!

- Temos amigos na Alemanha, em Inglaterra, podiamos explorar essas opções, teriamos apoio...

- Perdeste a cabeça!

 

Hoje

Estamos emigrados há quase 3 anos. 

 

 

A2

MGC, 26.09.19

São 6 anos e meio a dois, 3 deles casados. Parece que foi ontem, ao mesmo tempo parece que o conheci há uma vida inteira atrás.

Já se passaram tantas palavras por nós. Muitas de amor, outras nem tanto.

Todos os dias nos descobrimos mais um pouco, e mesmo assim há dias em que parecemos tão distantes.

Há de um tudo um pouco entre nós, mas o amor é aquilo que há a mais. É amor, admiração, amizade. É um gosto profundo pelo outro, uma vontade de manter o outro sempre em primeiro lugar.

Somos muito imperfeitos, cometemos muitos erros, mas enfrentamos o mundo A2.